E de repente fez-se o claro. O sol entrava pelas pequenas aberturas da janela e preenchia o lugar com uma luz jamais vista. Os primeiros raios causaram incômodo aos olhos. Mas não demorou muito para que se acostumassem com a beleza que dali surgia. Levantou-se ainda receosa, porém aproximou-se do parapeito para que conseguisse enxergar de onde se originava aquilo tudo. Abriu cuidadosamente a janela. Avistou seu jardim e percebeu que nunca havia notado a variedade de cores que ele possuía. Seus lírios tão adorados agora desabrochavam com muito vigor. A fonte de pedras jorrava água como nunca. As árvores completavam a paisagem com sua frondosidade tão nobre. Conseguiu sentir o cheirinho doce da brisa que fazia os galhos balançarem. Um pássaro prendeu, então, sua atenção. A julgar pelo modo com que balançava suas asas, estaria prestes a alçar seu primeiro voo. Ensaiou um tímido andar até o fim do fino galho em que se encontrava. Provavelmente analisando as consequências daquele ato de sair do ninho e se aventurar por novos caminhos. Tinha a certeza da opção que faria se estivesse no lugar dele e, torcendo para não estar errada, aguardava. E assim ele fez. Com um impulso ágil abriu as asas e voou rumo ao infinito. Aquilo era tão bonito de se contemplar. O céu tinha a cor do mar. Há quanto tempo não observava o mar. Lembrou daquela sensação de sentar na praia, ter o vento batendo no rosto e se perder na imensidão das ondas. A intensidade da lembrança fez com que percebesse que precisava disso tudo de novo. E um colorido diferente surgiu no céu. O coração acelerou. Não poderia ser um arco-íris. Era muito sorte para alguém como ela. Recordou a infância e tantas tentativas de encontrar um tesouro perdido. Mas agora gostava da ideia de saber que era a luz do sol se dividindo em tantas cores quando encontrava gotas de chuva na atmosfera. Tanta luz depois de tanta chuva. Sorriu. E era um arco-iris. Sentia cada partícula do seu corpo sendo preenchida com tanta beleza.
Se aquele jardim era seu e o sol surgia todos os dias no mesmo lugar porque sentia-se tão maravilhada hoje? Envergonhou-se da resposta. Percebeu que nos últimos anos havia colocado travas nas suas janelas e dificilmente permitia que fossem abertas. Entristeceu-se por ter perdido tantos espetáculos como aquele presenciado há minutos atrás. Mas sabia que tinha motivos. Não queria se expor ao frio, à poeira, às folhas soltas. Pensando bem, era tudo com o que havia convivido até hoje. Hoje. Havia algo de mágico e ela era capaz de sentir isso a cada molécula de ar que sua respiração absorvia. Decidiu que não teria mais janelas. De agora em diante construiria uma caminho que a levaria para o seu jardim. Cuidaria dele como se estivesse cuidando dela. Afinal, ele tinha sido responsável por trazer de volta a luz para ela. E em pensar que sempre estivera ao seu alcance. Abandonou esse pensamento. Aprendera em outras vidas que com o tempo não se tem diálogo. É soberano.
E de repente o sol brilhou ainda mais. Talvez para lhe assegurar que seus pensamentos estavam sendo compartilhados. Fechou os olhos por alguns minutos. Precisava gravar cada milímetro daquela imagem, pois um dia poderia não estar mais ali. Tolice! Insensatez! Heresia! Abandonaria esse e todos os outros pensamentos antigos.
Aquele era o seu jardim.
Seu jardim.
Seu!
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♪ "Sim, tudo agora está no seu lugar..
O Universo até parece conspirar..
Para que não seja tudo em vão..
Tanto tempo esperando esse amor.."
E de repente o sol brilhou ainda mais. Talvez para lhe assegurar que seus pensamentos estavam sendo compartilhados. Fechou os olhos por alguns minutos. Precisava gravar cada milímetro daquela imagem, pois um dia poderia não estar mais ali. Tolice! Insensatez! Heresia! Abandonaria esse e todos os outros pensamentos antigos.
Aquele era o seu jardim.
Seu jardim.
Seu!
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♪ "Sim, tudo agora está no seu lugar..
O Universo até parece conspirar..
Para que não seja tudo em vão..
Tanto tempo esperando esse amor.."
[Amores possíveis - Paulinho Moska]

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